A capela
Suas costas doíam terrivelmente, mas isso era incapaz de tirar o sorriso do seu rosto enquanto desvendava a obra perdida no escuro. O trabalho havia sido hercúleo, tomando sem a menor piedade cinco anos de sua vida, que o levaram da semi mendicância entre os retratos da elite do clero até o topo da hierarquia dos artistas, acima de qualquer pintor, escultor ou fotógrafo conhecido. Pietro esticou-se, satisfeito. Aquele trabalho lhe renderia a cadeira de Leonardo e o título de grão-mestre das artes e ofícios.
Naquela noite havia dispensado todos os ajudantes e curiosos para dar os toques finais no painel central pessoalmente. Seu coração havia estado afoito, suas mãos tremiam terrivelmente enquanto seus olhos tentavam se acostumar ao brilho inconstante das lâmpadas de Tesla. Enquanto pintava, Pietro pensou em como era grande o símbolo daquilo tudo e que meros duzentos anos atrás, ele teria sido vitimado e ridicularizado, talvez até mesmo morto pelos descrentes. Mas a verdadeira fé havia crescido e se fortalecido muito nos últimos 500 anos. Tivera seus mártires, fora vítima dos descrentes. Foi causa de guerras sem fim, heresias sem cabimento, mas resistiu através da argumentação pacífica, atravessando a maré de fé ilógica. Pietro pensou na capela negra que hoje se abria para os curiosos e poucos fieis que continuavam presos em uma era de insanidade quase mitológica, que depositavam todas as esperanças em seres intangíveis, tornando-se preguiçosos e dependentes.
Colocou a mão sobre o homem vitruviano que carregava no pescoço e pensou em Da Vinci. Pensou se ele teria coragem para fazer o que Leonardo fez se era digno aceitar o seu lugar. Pensou na imagem de Leonardo, diante dos incultos, falando sobre a vida, sobre a razão sobre a fé, sobre a capacidade do homem e sua supremacia sobre Deus. Pensou em sua morte na fogueira, o pavio acesso de uma era onde o homem seria o agente de todas as respostas.
Enquanto divagava, não ouviu os passos que haviam se aproximado lentamente. Quando a voz rouca do grão mestre falou, um arrepio gelado escapou da terra para percorrer seu corpo.
– É uma obra magnífica, Pietro.
Pietro de voltou para trás e encarou o rosto barbado do grão mestre sorrindo benevolente para ele. Encabulado, o pintor sorriu e balançou a cabeça, agradecendo.
– Foi um toque especial este último painel. Um pouco poético demais para um templo de ciências, mas eu agradeço a homenagem.
O pintor ficou na dúvida se aquilo era um elogio ou uma reprimenda, mas agradeceu da mesma forma.
– Grã Mestre, eu...
– Charles. Pode me chamar de Charles. Eu odeio esses títulos pomposos.
– Charles. Eu achei que cabia um pouco de imaginação para representar o fim do último bastião criacionista.
– Eu entendo, Pietro. Não me importo. Mas como evolucionistas, somos guiados pela razão, o mundo é mais simples sob nosso ponto de vista. Não acontece o mesmo com os criacionistas.
Pietro pensou um pouco sobre isso. Não tinha os criacionistas em mente quando idealizou seu painel e talvez aquilo tivesse sido um erro. Mas o que aquele punhado de crentes poderia fazer contra um mundo fundamentado na razão? Um simples debate esclarecido sobre a obra seria suficiente para que um ser humano estudado pudesse entender as suas razões. Charles provavelmente estava exagerando.
– Estou velho. Pietro. – Charles parecia adivinhar os pensamentos do pintor. – Fiz provavelmente a minha última grande contribuição a humanidade, com a origem das espécies. A supremacia da razão sobre todos os outros argumentos é uma batalha longa e cansativa. Estamos em paz, é verdade. Aprendemos a tolerância e a união, como um estudo lógico para o bem estar da humanidade. Conseguimos transcender o individualismos entendendo que o comunitário é a evolução do individual e colocando em números o valor de muitos contra o sofrimento de poucos. Estamos em paz. A humanidade prospera. Fomos a lua e exploramos os oceanos. Entendemos o nosso lugar no cosmos, acreditamos na nossa própria força. Desvendamos nossa mente e nosso corpo. – Seus olhos se levantaram encarando a obra de Pietro. – Desvendamos nosso passado e com isso ganhamos mais controle sobre o nosso futuro.
Pietro aguardou em silêncio, pensando na grandeza da humanidade e em tudo o que o homem fez para comprovar seu valor. Todas as suas conquistas, todos os seus sofrimentos. Sabia que pertencia a uma humanidade que era muito maior do que a dos seus ancestrais, adoradores de ídolos e da fé sem razão. E então concluiu que não importava, que a mente esclarecida não havia ofensa, apenas outra visão da verdade.
Charles colocou a mão no seu ombro e sorriu novamente.
– É uma obra magnífica!
Os dois olharam para o teto do Museu Natural e permaneceram em silêncio enquanto, acima da cabeça deles, uma fileira organizada de primatas caminhava com passos largos, a cada figura, estendendo-se e alterando-se em constituição e estatura, até seu último ascendente, um homem moderno, estendendo as mãos para a frente, tocando e reconhecendo aquele que era sua imagem e semelhança, outro homem igual a si.
Autor: Diego Guerra
07 fevereiro 2011
A capela
Tema.Artista/Theme.Artist: 055 Primatas/Primates, Diego Guerra
02 dezembro 2009
O Monstro de Martha
"Para Thalita"
No canto do quarto, Martha chorava agarrada a finos trapos de chita e um desejo inclemente de paz.
Havia um torrão seco de noite preso no céu se recusando a ser varrido do horizonte. O mundo era de uma penumbra avermelhada e fria, de um silêncio imaterial, quebrado apenas pelo rosnado de um monstro.
O rosto de Martha sangrava, mas ela não percebia as gotas grossas que se acomodavam abaixo do seu queixo, nem a carne intumescida que distorcia seu rosto redondo. Do seu mundo não restava nada, exceto a chita em suas mãos, o ronco em seus ouvidos e a certeza de que Deus não olha em sua direção.
Houve uma suave dissonância no ronco do animal que fez Martha estremecer e retornar do mundo de lamentos onde seus pensamentos estiveram perdidos. A criatura se revirava entre lençóis, como se tramasse despertar de seus sonhos de carne fresca.
Um pé peludo se projetou para fora da cama, com unhas amareladas e distorcidas que pareciam tatear o mundo a sua procura.
Sem perceber, Martha se levantou, deixando no chão suas lágrimas, os restos do seu vestido e uma piscina de dor.
Em pé, pode ter uma visão completa do animal que emporcalhava sua cama. Grande e flácido, esparramado em um amontoado de pelos que quase ocultavam a pele morena e calejava pelo sol e só falhava no alto da cabeça, deixando a mostra um pedaço esticado e suado de couro avermelhado.
Martha engoliu um murmúrio baixo que era a manifestação do próprio desespero e esforçou-se para se desprender da parede, sem se submeter novamente aos caprichos da gravidade.
Olhou para a porta do outro lado do quarto e se preparou para sair. Mas para onde iria? Ao lado da porta, sobre uma mesinha, brilhou a resposta escrita na mais bonita prata.
Os passos de Martha não fizeram ruído, embora ela os imaginasse em resoluta marcha. Suas mãos estendiam-se a frente como se Martha tivesse dificuldades de tatear o mundo. Os dedos pequenos de menina repletos de sujeitas e temores.
Martha não apanhou a arma de uma vez. Ela demorou alguns minutos olhando e tateando o metal cromado, como se tivesse alguma dificuldade de desenhar a solução em seus pensamentos. Quando finalmente ergueu o trinta e oito, o fez com grande dificuldade e nenhum jeito.
O monstro continuava na cama. Dormindo.
Uma surpresa maldosa abateu-se sobre Martha quando ela percebeu que não teria coragem. Uma nova onda de lágrimas convulsionou-a desesperadamente. A arma em sua mão oscilava pronta a disparar contra o mundo. Martha respirou pela boca rapidamente e olhou o objeto em sua mão, frio e insensível. Zombando de sua covardia. Prendeu a respiração e encostou a boca da arma embaixo do queixo. Chorou novamente. Pediu a Deus por coragem, mas Deus não perdoava os suicidas e não tinha motivo para encorajá-los. Engatilhou a arma lutando contra os próprios temores.
Na cama o monstro se remexeu. O corpo nu e coberto de pêlos se revelou de sob os lençóis. O rosto bestial parecia em perfeita paz. Tinha um nariz pequeno e um rosto enrugado pela idade. A boca era larga e se abriu mostrando dentes apodrecidos e esparsos pendurados em uma gengiva intumescida e babenta. Fosse o que fosse, Martha pensou, aquilo não era gente. Aquilo era o monstro de Martha. O demônio de seus pesadelos. Seu lobisomem.
Na mão, junto ao rosto, ele segurava um pedaço de chita rasgado de seu vestido.
Martha não soube se foi por isso. Um pequeno pedaço de si, que aquele homem segurava com tanto amor durante o sono, ou se fora a percepção de que Deus não seria capaz de criar algo tão imundo e chamá-lo de homem. Martha sentiu o ódio prestes a sufocá-la e segurou com as duas mãos a arma diante de si, lutando para não tremer. Era só puxar o gatilho e estaria livre. Só puxar o gatilho e seu pesadelo terminaria. Só puxar o gatilho e a fera estaria morta. Mas Martha, mesmo no auge de sua raiva, não podia matá-lo assim.
Sua boca se abriu em desespero, procurando preces, palavras, consolos. Coragem. Olhou novamente o lobisomem e chamou com a voz mais calma que encontrou.
–Pai?
Acertou três tiros em seu peito no instante em que ele abria os olhos.
Autor: Diego 'Diggs' Guerra
http://tntexto.blogspot.com/
Tema.Artista/Theme.Artist: 045 Lobisomem, Diego Guerra
27 julho 2009
Palhaço Ladrão de Orgãos
Não sei vocês mas eu tinha pavor de palhaços até ter idade o suficiente para entender que isso era apenas uma lenda urbana... mas que faz sentido, faz sentido.
Técnica: Photoshop
Artista: Diego Guerra
Tema.Artista/Theme.Artist: 041 Lendas Urbanas, Diego Guerra
06 fevereiro 2009
17 novembro 2008
O encantador de sereias
Estava Bêbado. A constatação poderia ser óbvia depois da terceira garrafa, mas não era como qualquer um. Estava bêbado, mas seus olhos continuavam límpidos, suas mãos não tremiam, seu andar tinha o perfeito equilíbrio de um marinheiro acostumado as altas tempestades do mar.
Ainda assim estava bêbado, e podia ter certeza disso graças a confusão em sua mente. Não sabia onde estava. Nem tinha idéia de onde queria chegar. Olhou para a ponte de um lado para o outro perdendo-se na neblina salpicada de pequenas luzes imóveis que poderiam ser estrelas ou lâmpadas de um mundo escondido a poucos passos. Não sabia se estava indo ou voltando, da direita ou da esquerda. Tudo o que havia de certo era a ponte sob seus pés e o braço de mar abaixo dela. O cheiro inconfundível da água salgada e o ritmo das ondas traziam-lhe uma estranha melancolia. De um lado para o outro, ele ouvia o mar embalando a noite como uma criança em seu colo.
Tinha uma garrafa em sua mão pelo terço e não havia nada a ser feito, exceto bebê-la. Ele se debruçou na amurada e entornou de sua boca doces goles, como beijos que o amor nunca lhe trouxe.
O ar era frio e espectral, polvilhado de idéias que surgiam do álcool. O silêncio o incomodava e para espanta-lo cantou. Sua voz era gasta e mal tratada, mas determinada, resolvida a ser ouvida a todo custo. A musica ganhou o ar da noite como se silenciasse o barulho das ondas. Sem aviso alguém cantou de volta. Assustado ele olhou para os lados buscando a origem da voz, mas não havia ninguém, só um eco difuso, perdido no tempo. Ele ganhou coragem na brincadeira e voltou a cantar, procurando de um lado ou de outro, esperando que um rosto surgisse para reivindicar a voz.
Talvez a bebida estivesse fazendo mais efeito do que pensava, sentia-se etéreo, eufórico. Cantava agora usando o ribombar do sangue em suas veias como base e a canção acelerava, acompanhada daquela voz doce. Estava extasiado. Tudo o que queria era encontrar a dona de sua voz, mas não sabia para que lado ir. Então assustou-se, percebeu que não era uma voz a acompanhar a sua, eram duas, eram muitas. Agora arranjadas como um coro que o circundava. Sua cabeça girava, de onde vinham aquelas pessoas? Sua voz se calou, enquanto procurava respostas. Seus olhos se voltaram para o mar que perdia-se num dos lados da ponte e ele aproximou-se do parapeito, incrédulo.
Algo surgiu das trevas batendo asas como uma grande gaivota, ele gritou mas seu grito pareceu mudo tamanha era a altura das vozes ao seu redor. Assustado se debateu contra asas, garras e um odor fétido de peixe. Cego e amedrontado, confuso e bêbado, desequilibrou-s e caiu da ponte.
Uma a uma as vozes se silenciaram ao ouvir o som de um corpo batendo na água.Na manhã do dia seguinte, quando a neblina desapareceu, os moradores daquela cidade presenciaram uma cena estranha. Caído na beira da praia, trazido pelas ondas da noite, estava o corpo de um homem afogado. E ao seu redor, espalhadas na areia, uma dezena de sereias sem vida.
Autor: Diego Guerra
Tema.Artista/Theme.Artist: 033 Sereias, Diego Guerra
22 setembro 2008
04 setembro 2008
Nem carne, nem sangue.
A eletricidade corria seu corpo como um zumbido gelado e constante. As juntas de polipropileno rangiam ao som do titânio em seu esqueleto, mas ele apenas forçava mais, seguindo o modelo simulado incrustado em seu processador multicore.
– Como corre! – Samantha protegia os olhos fazendo sombra com os dedos acima dos olhos. Era um dia claro de Abril e havia uma brisa gelada soprando no campo de testes.
– É essa a idéia! – Chang tomava notas em sua caderneta de papel, para o horror de Samantha.
– Nunca vou entender. – Ela viu o corredor deslizar para a direita e continuar seu trajeto imutável.
– O quê? – O monitor acusava calor excessivo entre as juntas do tornozelo esquerdo. Chang anotou a variação mas não achou o problema significativo.
– Você é o maior engenheiro mecatrônico do país! – Samantha pareceu embaraçada enquanto procurava as palavras; tinha muito orgulho do novo amigo.
– E isso é motivo de surpresa? – Sorriu Chang.
– Bobo! O que eu não entendo é porquê você ainda escreve em papel ao invés de comprar um HC como todo mundo.
– Gosto de coisas antigas. – Chang recurvou-se pela murada. Pensou ter visto um espasmo na perna do corredor, mas não estava completamente certo sobre isso.
Samantha não entendia e provavelmente não entenderia nunca. Havia lido em algum lugar que Chang, sozinho, havia avançado a ciência em pelo menos 50 anos, mas o engenheiro acumulava hábitos que haviam sido esquecidos a décadas.
– Ali! Chang apontou a caneta tinteiro para o corredor e franziu as sobrancelhas para Samantha. – Você viu?
Samantha levantou os ombros e sacudiu a cabeça obviamente aturdida. Sua mãe lhe ligaria naquela noite e lhe perguntaria como havia sido.
– Pode parar Mathias. – Chang fez um sinal para o corredor e anotou o defeito apressadamente em seu caderninho. – Seu irmão tem um pequeno aquecimento no tornozelo, a primeira vista não parecia nada grave, mas o calor em excesso está, muito provavelmente, afetando o desempenho da placa de controle de passos. Nada grave, ele ficará pronto antes dos jogos.
– Ah! – Samantha não queria demonstrar sua decepção, mas a verdade é que não havia pensado em se afastar de Chang tão cedo. Queria mais tempo.
– O que foi? Algo errado? – Chang virou-se para Samantha e rapidamente voltou-se novamente para o caderninho, esboçando um pequeno projeto do que poderia ser uma melhoria naquele modelo de perna. Quando o projetara imaginava-o ideal para longas caminhadas. Era surpreendente que ela desenvolvesse velocidade o suficiente para uma corrida como aquela. Iria sugerir alguns ajustes mais tarde, na oficina.
– Queria saber se você não quer assistir um filme, ou coisa assim.
A mão de Chang tremeu o suficiente para estragar o pequeno desenho. Ele voltou-se para Samantha pronto a protestar, mas deteve-se diante do seu olhar. Ela o examinava, constrangida.
– É claro. – Sorriu. – Tem um cinema antigo com projetor de 16mm que eu queria mesmo conhecer.
– Adoro filmes antigos. – Samantha deu dois pulinhos radiantes, fazendo um barulho peculiar sobre o assoalho de madeira.
Chang sorriu. Sorriu pos ela era muito jovem e ele era velho. Sorriu porquê ela usava peças que ele havia desenvolvidos a anos. Sorriu porquê era a coisa certa a fazer. Samantha passou o braço pelo dele e foram juntos encontrar seu irmão.
– Que filme veremos? – Uma nuvem ocultava o sol enquanto dois jatos cruzavam o céu, deixando rastros de fumaça atrás de si.
– Um filme bobo, sobre seres humanos. – Chang não pareceu muito certo sobre isso, mas Samantha não se importava.
–Espero que seja um romance. Adoro os romances humanos. – Samantha tocou o polipropileno do braço de Chang e imaginou a estática se acumulando entre eles. – Como eram os humanos Chang?
O engenheiro soltou uma risada divertida e repreendeu Samantha com um olhar de soslaio.
– Não sou tão velho assim! – Samantha sabia que não. Ninguém no mundo podia ser tão velho assim.
Texto: Diego Guerra (Digs)
Tema.Artista/Theme.Artist: 030 Robots, Diego Guerra
02 julho 2008
Não morra com a cara na merda
Tudo cheira a bosta. Por um momento eu penso que a profecia de meu pai irá se realizar e eu vou morrer na merda. O sorriso se insinua pelos meus lábios sem que eu tenha forças para detê-lo. Uma mulher engole em seco enquanto se esconde atrás de cortinas. Cortinas seguram balas tanto quanto janelas seguram seus olhares. Eu vejo um sorriso em seus lábios e imagino como a minha vida poderia ter sido diferente. Bem, talvez não muito.
Arrependo-me da distração tarde de mais. Ouço a arma engatilhada parte de segundos antes de ouvir um disparo. Uma bala já está no ar, outra logo segue seu caminho. Sinto algo queimando em minha mão e só ao olhar para baixo percebo que eu já disparei, mas não rápido o suficiente. Algo me acerta na barriga como um murro e eu perco a força das pernas. A voz de meu pai volta a trovejar sobre meu destino no esterco e eu arrumo coragem para não cair ainda. Alguma coisa assobia na minha orelha e eu imagino os índios, falando com o vento. Meu dedo aperta o gatilho novamente, três vezes antes de eu conseguir me lembrar do que estava acontecendo. O chão se levanta em explosões de poeira e fragmentos de pedra. O sino da igreja toca uma encomenda pela minha alma. Eu consigo me esconder atrás de uma cocheira, mais caindo do que correndo e sinto algo quente melando minhas pernas. Acho melhor não olhar. Talvez seja sangue, talvez as fezes sujas de minhas tripas, ou talvez seja medo me fazendo mijar nas próprias calças. Não importa, não gosto de nenhuma das opções.
Eu abro o tambor da arma e mantenho a cabeça baixa enquanto ponho mais chumbo no lugar. Um cavalo relincha do outro lado da rua quando é atingido por um disparo. Minha visão fica turva. Lembro do tapa na minha nuca enquanto tentava manter a arma reta, com as duas mãos. "Atira! Vai atira!" O cavalo da fazenda relinchando de agonia era um sombrio acompanhamento para a voz rouca de meu pai. "Atira, seu merda! Você não serve para nada mesmo! Vai morrer na merda sem nunca ser ninguém!" As palavras e os relinchos do cavalo percorreram minha pele, congelando meus nervos e deixando minha mão firme. A arma se engatilha em minhas mãos, sem que eu sequer pense a respeito disso. Sinto um toque quente lambendo o meu rosto, mas já não me importo. Minha coragem se pinta nos quatro estampidos secos que me cobrem os pensamentos. Depois disso, só existe um ar coberto de uma fumaça tão densa quanto o silêncio onde ela flutua. Eu espero a névoa se dissipar dos meus olhos e vejo um cavalo caído do outro lado da rua, ferido por um tiro, morto por três das minhas balas. A quarta bala terminou no fim da rua; no peito do homem morto, com a cara na merda.
Cowboy: Digs 'Coffin' Depper
Tema.Artista/Theme.Artist: 028 Faroeste, Diego Guerra
23 junho 2008
Negror
A nau cortou o mar da noite sem fazer nenhum ruído. Ondas eram partidas sob seu casco como uma lâmina. As velas haviam sido recolhidas e remos treinados para o silêncio escuso de seu ofício empurravam adiante como as muitas patas de um gigantesco inseto, caminhando sobre a água.
No tombadilho o capitão sorria. A sua frente brilhavam fracas as poucas luzes da cidade, e o farol costeiro que atraiam o inseto venenoso. Em suas camas, as pessoas dormiam sem saber que seus olhos nunca mais se abririam. Quando o sol se levantasse, encontraria uma cidade em prantos, com homens agonizando e mulheres aos prantos. Não haviam grandes tesouros naquela cidade, a igreja, pelo que se lembrava, era uma velha construção de barro cozido. Seus habitantes viviam da pesca e da visita de baleeiros, mas não era época de se caçar baleias. A cidade, vivia uma tranqüilidade perturbada apenas pela preocupação pelo pão do dia seguinte.
Porém haviam outros bens, que o atraiam até ali. Bens, que em nada tinham com ouro ou pedras preciosas. Aquele homem maldito jamais deveria ter lhe negado a mão de sua filha, mas agora era tarde. Quando a manhã amanhecer... cinqüenta homens voltarão ao navio com cintos desatados e sorrisos maldosos no rosto. E ele estaria lá para assistir o veneno de seu barco, escorrendo por sobre as camas.
Texto: Diego Guerra
Pirata: Digs 'Pena Negra'
Tema.Artista/Theme.Artist: 027 Piratas, Diego Guerra
20 maio 2008
O aguardado fim.
A nave parou subitamente, entre as nuvens e permaneceu flanando suavemente ao balançar dos ventos. Aquilo só era possível porquê apenas parte dela estava naquele mundo, outra parte estava muito além dele, além do que qualquer um naquele pequeno planeta azul poderia compreender. Dentro dela, Ashtar Sharon permanecia em silêncio.
– Falta pouco, agora! – sua voz era um sussurro cansado, centenas de anos em silêncio haviam consumido as palavras, mas a ocasião era séria demais para simples telepatia.
Os outros tripulantes se colocaram ao lado do comandante enquanto uma imagem se projetava do chão da nave cortando uma escuridão tão profunda quanto todo espaço. A imagem era de uma brutalidade assustadora. Entre prédios semi destruídos um grupo de homens trocava tiros contra outro grupo que marchava ao lado de um tanque de guerra. Explosões se sucediam por todos os lados, homens simplesmente desapareciam em meio a uma nuvem de fogo, fumaça e pedaços de carne.
Alguns dos observadores viraram o rosto, mas Ashtar permaneceu onde estava, observando a tudo com uma impassibilidade triste. Recriminando-se por tudo o que não havia feito. Mas já havia feito muito.
– Todos estão a salvo? – a pergunta fora feita para si, mas isso não impediu um dos seus comandados de afirmar que sim, todos os que haviam sido iluminados tinham sido salvo. Exceto aqueles que tinham escolhido ficar.
Ashtar já havia feito resgates como aquele outras vezes e sabia que os melhores sempre ficavam para perecer com os piores. Mas eles já estavam salvos, seriam levados dali para um estágio muito mais puro. Não eram esses que o preocupavam, mas já não havia nada que pudesse fazer.
– É agora! – A imagem da sala mostrou um grupo de mísseis sobre os céus, quase cruzando com outro grupo de mísseis, na direção contraria. Houve um silvo longo e fúnebre pelo ar. Na cidade em ruínas os disparos e explosões silenciaram enquanto olhos perplexos olhavam para o céu. Uma mulher agarrou uma criança, dois jovens se beijaram, um homem sofreu um infarto. Uma velha senhora teve uma crise de risos. Uma luz brilhante ofuscou os olhos de Ashtar com o golpe de bilhões de almas deixando seus corpos.
A nave tripidou um pouco, pela energia que rasgava os universos. Ashtar chegou a temer ter estado perto demais. Mas não. No momento seguinte era tudo silencioso, como uma tumba. Ashtar balançou levemente a cabeça e sorriu para os seus companheiros.
– Vamos para casa. – Foram suas palavras. – A Terra já não existe mais.
Enquanto a nave se afastava, Ashtar deu uma última olhada para trás, em busca daquele pequeno ponto azul que por algum tempo impressionou tanto os Homens. Inspirando as palavras de Carl Sagan:
"(...) Nós podemos explicar o azul-pálido desse pequeno mundo que conhecemos muito bem. Se um cientista alienígena, recém-chegado às imediações de nosso Sistema Solar, poderia fidedignamente inferir oceanos, nuvens e uma atmosfera espessa, já não é tão certo. Netuno, por exemplo, é azul, mas por razões inteiramente diferentes. Desse ponto distante de observação, a Terra talvez não apresentasse nenhum interesse especial. Para nós, no entanto, ela é diferente. Olhem de novo para o ponto. É ali. É a nossa casa. Somos nós. Nesse ponto, todos aqueles que amamos, que conhecemos, de quem já ouvimos falar, todos os seres humanos que já existiram, vivem ou viveram as suas vidas. Toda a nossa mistura de alegria e sofrimento, todas as inúmeras religiões, ideologias e doutrinas econômicas, todos os caçadores e saqueadores, heróis e covardes, criadores e destruidores de civilizações, reis e camponeses, jovens casais apaixonados, pais e mães, todas as crianças, todos os inventores e exploradores, professores de moral, políticos corruptos, "superastros", "líderes supremos", todos os santos e pecadores da história de nossa espécie, ali - num grão de poeira suspenso num raio de sol. A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica. Pensem nos rios de sangue derramados por todos os generais e imperadores para que, na glória do triunfo, pudessem ser os senhores momentâneos de uma fração desse ponto. Pensem nas crueldades infinitas cometidas pelos habitantes de um canto desse pixel contra os habitantes mal distinguíveis de algum outro canto, em seus freqüentes conflitos, em sua ânsia de recíproca destruição, em seus ódios ardentes. Nossas atitudes, nossa pretensa importância de que temos uma posição privilegiada no Universo, tudo isso é posto em dúvida por esse ponto de luz pálida. O nosso planeta é um pontinho solitário na grande escuridão cósmica circundante. Em nossa obscuridade, no meio de toda essa imensidão, não há nenhum indício de que, de algum outro mundo, virá socorro que nos salve de nós mesmos. (...)"
Mas não mais.
Não mais.
Autor: Diego Guerra: “Quando eu era pequeno, tinha medo do fim do mundo e acreditava que um dia eu teria que lutar com alienígenas para sobreviver!”
Citação: Carl Sagan
Inspiração: Uma tal Cientologia
Tema.Artista/Theme.Artist: 026 Alien Bizarro, Diego Guerra
03 março 2008
Os últimos passos de um morto.
........Esperava que o mundo estivesse coberto pela chuva. Mas não. A noite tinha uma lua clara e esperançosa no céu, com promessas de amanhã que não cabiam a ele. Esperava que seus pensamentos fossem confusos, restos de matéria cinza e morta escorrendo pelo seu queixo. Mas não. Havia uma imagem clara em sua mente, apontando-o como um farolete em direção a casa despontando a sua frente. Esperava que a morte levasse toda sua agonia.
Mas não.
........Seus pés se mexeram com dificuldade, com músculos putrefatos e tendões partidos que lhe emprestavam os movimentos de um marionete sem cordas visíveis. Tinha pressa, mas nenhum fôlego. Seus pulmões não passavam de um amontoado pegajoso de barro. Podia sentir os vermes se movendo, bocas minúsculas e cheias de dentes, mastigando e defecando o que encontrassem pela frente. Gemeria se ainda tivesse língua, mas através de lábios que não existiam mais, as palavras chocavam-se contra ossos descarnados e secos. Cobertos de pó e lembranças.
........Ele enxergou o velho balanço, gemendo sob a brisa amistosa e a luz da cozinha recheada de sons de panela. Permitiu-se um momento de reflexão, sob a mangueira onde tantas tardes pousaram seus corpos. Com os olhos fixos nos galhos que escondiam-nos de Deus, autorizados aos piores pensamentos, aos mais impublicaveis desejos. A mão que lhe restava, era menos que uma garra decrépita onde pendiam três dedos que se agarraram a corda do balanço com uma humanidade que nem ele mesmo poderia reconhecer. Viu sombras na janela, um vulto feminino e só então percebeu o quanto estava cansado. A morte era só aquilo. Cansaço e decepção.
........Havia música tocando em algum lugar, mas ele não poderia mais ouví-la. Um arrepio em seus ossos, era a única coisa que denunciava a voz que gargalhava dentro da casa. A voz que tantas vezes disse que lhe amava. Ele se agitou, moveu-se rápido com os pés trôpegos, caindo e se levantando vezes sem conta, enquanto deixava para trás restos do que fora seu corpo. A luz da janela era como o túnel para o outro mundo, aquela luz que deveria ter arrancado sua alma do corpo em direção a outro lugar se ele não houvesse se recusado tanto a partir. Era mesma luz, brilhando ali, como a promessa de uma outra vida. Sentiu os ossos da perna se partindo e temeu jamais chegar até lá. Seu corpo morto e repleto de vermes tombou para frente esperando espatifar-se contra as flores plantadas sob o batente. Os dedos de sua mão se estenderam desesperados, se agarrando ao que quer que fosse. Tinha conseguido. O braço esforçou-se para ergue-lo até o batente da janela onde estava agarrado e ele percebeu que já não tinha pés, ou pernas. Um lodo esverdeado escorria dele, como o sangue que já não tinha. Mas a ele nada importava, havia conseguido. Tudo o que queria era uma visão.
........Seus olhos mortos demoraram a se acostumar com a luz da casa, depois a varreram de um lado ao outro, esbarrando em todos os objetos que havia deixado para trás. Seu álbum de casamento, as lembranças de lua de mel. Seu sorriso em papel fotográfico e molduras de madeira.
Seu corpo nu, abraçado por outro, no tapete da sala.
Esperava que todo sacrifício tivesse sua gratificação.
Mas não. A Morte era apenas aquilo. Cansaço. Decepção.
Autor: Diego Guerra
Tema.Artista/Theme.Artist: 022 Zumbis, Diego Guerra
16 agosto 2007
No Ar...
– Diego, quequevocêtáfazendoaiemcima?!
– Tô pensando mãe!
– Pensando no quê, menino de Deus?! Desce antes que você caia!
– Tenho que mandar uma história pro pessoal do TNTema e tô sem idéia.
– Meu filho! Já te falei que essa história de escritor não dá em nada, desce daí antes que você se machuque!
– Eu só queria esticar mais um pouquinho!
– Ah, moleque! Desce! O que você ta fazendo de pé!? Se segura, se segura! Aimeudeusdoceu ele vai cair!
– Queria só pegar um passarinho... OOooOoOo...
– Não quero olhar!
– ....
– Dona Miriam o que aconteceu?
– Ah, meu filho! Eu sabia que essa história de escrever ia acabar com ele um dia!
– Mas olha lá, dona Miriam, ele não caiu!
– Não caiu?
– Tô aqui mãe!
– Diego! Larga do rabo desse urubu e entra pra casa menino!
...
Técnica: Teclado
Artista: Diego Guerra (Digs)
Tema.Artista/Theme.Artist: 013 Ar, Diego Guerra
25 julho 2007
Ao Estilo Anão
– Balin! – Lóni, gritava enquanto as batidas venciam a porta. – Balin! – Do lado de fora, uma miríade de orcs cobiçavam suas vidas entre gargalhadas e sons de tambor. Lóni olhou para trás e viu Ori fechando o diário, estremecendo de ódio e temor. Não haveria nenhuma canção para eles, os últimos anões de Moria. Seus corpos estavam fadados ao desterro, sem lágrimas.
– Deixe-os entrar, Lóni! Balin está morto. – Ori levantou-se tentando ignorar a dor que atravessava suas costelas onde a lança de um orc havia perfurado a cota de malha e bateu a imensa marreta de guerra nas mãos, esperando que o peso da arma lhe desse a força necessária. – Vamos mostrar como morrem os anões de Moria.
Frár e Náli tinham os rostos emporcalhados em sangue orc e cavados pelas lágrimas. Mas aquelas palavras foram o suficiente para fazerem se recompor. Os quatro anões colocaram-se de pé, como um anão deve esperar sua morte. Ori balançou a cabeça confirmando seus piores temores, não havia qualquer esperança de saírem daquele lugar.
– Lóni? – Ori colocou a mão sobre o ombro do irmão e olho-o nos olhos. – Você deve levar o corpo de Balin para a câmara de registros, deve deixar esse diário com ele. Um dia, talvez, alguém possa lamentar a morte de Balin, filho de Durin, apropriadamente.
– Com mil martelos, eu vou ficar e lutar! – Ori sorriu. Sabia que o desejo de Lóni era ficar e morrer, como os outros e lamentava ter que pedir algo tão diverso para ele. – Vá você, Ori! Você é o mais rápido de nós quatro, também é o mais habilidoso. Nós vamos segurar os desgraçados até você chegar a câmara dos registros. Pelas barbas de Balin, eles vão pagar essa morte com muito sangue!
– Ao estilo anão! – Náli assentiu com um sorriso.
Frár concordou com uma gargalhada insandecida e desesperada.
Ori queria morrer com os seus amigos, mas não disse mais nada. Sabia que de nada adiantaria discutir; estavam perdendo tempo. Apanhou o corpo morto do seu senhor e pousou-o nas costas com uma delicadeza inesperada para seres tão brutos. Seus pés se moveram com velocidade, apesar dos ferimentos, na esperança de que pudessem voltar a tempo para a batalha. Não olhou para trás nenhuma vez, tinha medo de que se o fizesse perdesse suas forças.
Lóni, Náli e Frár olharam para a porta que estava prestes a ceder e não viram Ori desaparecendo pelo outro lado da ponte. Os três anões esperaram pela morte que vinha alcança-los a passos longos. Agora só havia um caminho a seguir e ele não os levaria para casa.
– Talvez ninguém nunca saiba sobre a nossa morte! – Lamentou Frár, testando o fio de sua espada.
– Então, vamos ao menos dar a esses orcs, razão o suficiente para cantar a sua vitória! – Sorriu Náli. Os três gargalharam, cantando a canção de Moria quando as portas finalmente se escancararam. Era a bocarra negra da morte, os seres perdidos do senhor da escuridão, vindo das fossas infernais em busca de suas almas. Mas eles não as entregariam facilmente. Eles morreriam sim, isso era certo!
Mas ao estilo anão!
Texto: Diego Guerra (Digs)
Tema.Artista/Theme.Artist: 012 LOTR, Diego Guerra
06 julho 2007
Conto nas Estrelas!
O rádio relógio tocou as seis, destruindo os sonhos de Lucas. Aquilo se repetia toda manhã. No melhor parte da história, o relógio tocava deixando-o imerso nas possibilidades cujo fim ele jamais compreenderia. Lucas então se levantava, desligava o despertador e voltava para a cama, com a ilusão pouco realista de que seu sonho continuaria de onde havia parado, como se houvesse dado pausa em um filme. Não era assim que funcionava, e ele inevitavelmente acabava atrasado para o trabalho.
Naquela noite havia tido um sonho estranho. Um homenzinho verde, de cara enrugada falava alguma coisa que ele não compreendia e batia nele com a bengala por fazer alguma coisa errada. Havia perdido os detalhes e agora, rolando na cama com os olhos fechados, tentava descobrir o que era antes de bater a mão contra o despertador e tentar continuar o que havia perdido. O velhinho verde falava de um jeito engraçado, sua voz arranhava na garganta, em um esforço cansado. A musica do rádio relógio batia em seus ouvidos, dificultando seus pensamentos. Talvez devesse desligá-lo, jogá-lo de uma vez contra a parede. Entregar-se, finalmente, aos seus sonhos, deixando de lado toda aquela rotina monótona. Estava cansado do trabalho na oficina, sempre os mesmos problemas, sempre as mesmas queixas, e o cheiro de graxa que não saia de sua pele, nem com o melhor dos sabonetes. Estava cansado de acordar sabendo exatamente como seria o seu dia. Queria algo mais. Um pouco de ação e aventura. Lindas garotas de biquíni, lutas de vida ou morte. Guerras pelo destino do universo... qualquer coisa.
Talvez daqueles desejos nascessem aqueles sonhos de velhinhos verdes. O rádio berrou The Power of Love, de Huey Lewis and News, relembrando um dos filmes de sua infância. Michael J. Fox em perseguição de skate. Um clássico da sessão da tarde, revisto vezes sem conta. Ele cantarolou sem querer a música, queria se concentrar no sonho. Estendeu os dedos irritado, procurando pelo despertador e descobriu que o rádio estava do outro lado do quarto. Ele o havia colocado lá, para evitar de desligá-lo e acabar perdendo a hora. Agora teria que se levantar. O universo conspirava contra ele. Era um cavaleiro solitário lutando contra uma força maior. Subitamente, este pensamento ganhou forma, e finalmente ele se lembrou do sonho.
A mão se estendeu em direção ao rádio relógio e a voz do homenzinho verde ecoou outra vez em sua memória. “Use a Força, Lucas! Use a força!”
...
Técnica: Letras sobre páginas.
Artista: Digs
Tema.Artista/Theme.Artist: 011 StarWars, Diego Guerra



